Make your own free website on Tripod.com
PAULO VIEIRA NETO

 

 

O DESAPARECIMENTO DE UMA PROFISSÃO:
O RADIOTELEGRAFISTA DE VÔO - EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA E DESEMPREGO NAS TELECOMUNICAÇÕES
 
  Mestrado em Economia Política
 
PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA - PUC/SP

 

São Paulo
2000

Capítulo 3 Telecomunicações: um breve histórico

Introdução

Este capítulo tem como objetivo fazer um pequeno apanhado histórico das telecomunicações, das primeiras transmissões pelo telégrafo, pelo telefone, do progresso nas telecomunicações, da TSF - Telegrafia Sem Fio - e do aparecimento das profissões de Telegrafista e de Radiotelegrafista, do aparecimento do telex, do fac-símile e das profissões na área das telecomunicações.

Provavelmente, um dos primeiros instrumentos que o homem utilizou para fazer suas mensagens atingir uma maior distância foi a mão em concha.

Com a modulação do grito - com a mão em concha - atinge-se uma maior distância, caso o homem não use nenhum artifício para conseguir seu intento.

Uma das preocupações do homem, em relação às comunicações, foi quanto às telecomunicações ou comunicações à distância. O homem sentiu a necessidade de saber o que estava acontecendo nos lugarejos vizinhos e distantes.

3.1. As primeiras tentativas de transmissão de mensagens à distância

Os primeiros meios que o homem utilizou para comunicar-se à distância foram através de luzes, fumaça, movimentos com os braços ou outros instrumentos, porém qualquer um desses métodos fica limitado ao alcance visual. A descoberta da eletricidade facilitou a transmissão de mensagens à distância.

Nos dias atuais, os faróis instalados nos aeroportos, nos portos marítimos ou outro local qualquer ficam limitados até onde nossas vistas possam alcançá-los. Para resolver esse problema, da transmissão à distância, talvez as primeiras tentativas por meio da eletricidade tenham sido com o sistema telegráfico.

Segundo (MOREIRA, 1918:17), as primeiras tentativas de transmissão de informações datam por volta de 1750. Em 1774, Lesage, sábio de Genebra, tentou construir um sistema de telegrafia composto de 25 fios, usando 25 bolas de sabugueiro suspensas por fios de seda que eram movimentadas por condutores carregados de eletricidade. Em 1811, Sommering decompunha a água à distância em 25 voltâmetros. Tanto os voltâmetros de Sommering como as bolas de sabugueiro correspondiam às 25 letras de um alfabeto.

Após as descobertas realizadas pelo francês, André-Marie Ampère (1775-1836), no ano de 1820, e da construção do primeiro eletroímã, surgiu uma nova dinâmica no desenvolvimento de novos meios de comunicação.

Um exemplo dessa nova tecnologia, segundo o Museu Pombalino de Física da Faculdade de Ciências de Coimbra, é o telégrafo de Bréguet, constituído por um emissor e um receptor, ambos alimentados por uma bateria elétrica:

"Tanto o emissor como o receptor apresentam um mostrador circular, onde se encontram gravadas as letras do alfabeto. O emissor possui ainda, na zona central do mostrador, um disco de latão cuja periferia é ondulada. Este disco, ao rodar, acciona uma lingueta metálica que fecha e abre sucessivamente o circuito eléctrico constituído por emissor, receptor e pilha eléctrica de alimentação do sistema. O receptor dispõe de um electroíman que actua sobre uma armadura, atraindo-a quando a lingueta do emissor fecha o circuito e libertando-a quando o circuito for aberto. O movimento de vaivém da armadura é transmitido a uma roda dentada; esta gira solidariamente com um ponteiro, cuja extremidade, ao mover-se, indica as letras do alfabeto desenhadas no mostrador do receptor." Em 1832, Samuel Finley Breese Morse (1791-1872) criava seu primeiro dispositivo telegráfico. Eram feitas as transmissões acionando-se uma chave telegráfica. Segundo BEVAN & MACHADO (1981), no receptor, montado sobre uma armadura de um magneto, havia um lápis; na existência de corrente, esse lápis imprimia em uma fita de papel um sinal em forma de V. Esses sinais em forma de V, agrupados de modo adequado representavam um V, que correspondia ao número 1; as letras eram associadas a outros números. Porém, esse método era muito complicado.

Por volta de 1838, os ingleses Charles Wheatstone (1802-1875) e William Fothergill Cooke (1806-1879) criaram um sistema de telégrafo. Montaram o seu telégrafo na estrada de ferro entre Londres e Blakwell. Era um sistema caro, composto por cinco linhas, só um pouco mais tarde, em 1845, conseguiram reduzir seu invento a uma só linha.

A grande aceitação da telegrafia só foi possível assim que Samuel Morse, em 1844, criou o Código Morse, um sistema binário de combinação de pontos () e traços (). Por exemplo, para escrever a letra "A", combinam-se um ponto () e um traço (): ( ), a letra "B", combinam-se um traço e três pontos: ( ), a letra "E", um ponto () e assim sucessivamente até formar o Alfabeto Morse. No mesmo ano em que apresentou seu invento foi efetuada uma transmissão pelo telégrafo morse, entre as cidades de Baltimore e Washington.

Assim que surgiu o telégrafo de Morse, houve uma difusão do seu invento por todo o mundo; no Brasil, o telégrafo elétrico foi inaugurado em 11 de maio de 1852. Então surgia a profissão de telegrafista no Brasil e a geração de empregos relacionados com as telecomunicações.

O telegrafista transmite e recebe as mensagens enquanto outras pessoas coletam, retransmitem e distribuem as mensagens, e os técnicos fazem reparos e manutenção de equipamentos.

Após o homem conseguir comunicar-se à distância, por meio de sinais elétricos, uma de suas preocupações foi com o aperfeiçoamento da nova tecnologia e a redução de custos dos equipamentos empregados em telecomunicações. Como exemplo citamos a eliminação de um segundo fio, já que antes eram empregados dois fios para as transmissões das mensagens através do telégrafo.

"Pondo de lado o estudo de innumeros systemas de telegraphia, que foram anno a anno suplantados por outros mais aperfeiçoados, devemos aprender em primeiro lugar, que uma comunicação telegraphica se compõe a rigor de: uma pilha, um transmissor ou manipulador, dois fios para o transporte da corrente eléctrica ao receptor e volta á pilha. (...) Tendo-se descoberto que a terra poderia substituir o conductor de volta ou de retorno da corrente (Descoberta por, Steinheil), supprimiu-se um fio, reduzida a uma pilha, com polo ligado á terra, um transmissor, um fio conector (...)" (MOREIRA, 1918:26). (o grifo é nosso). Novas invenções ou adaptações foram surgindo, tornando os meios de telecomunicações pela telegrafia cada vez mais eficientes. Como exemplo citamos a pilha que foi umas das primeiras invenções que possibilitaram o uso do telégrafo, para o fornecimento de corrente elétrica, inventada por Alexandre Volta (1745-1827), professor em Pávia. A pilha consistia em pequenos discos de metais empilhados e separados por pedaços de tecidos embebidos em ácido.

Outra invenção, o Duplex, era um sistema utilizado em telegrafia que permitia a transmissão e a recepção de dois telegramas simultaneamente, utilizando o mesmo fio condutor, melhorando e aumentando com tendência a dobrar a oferta de serviços de telecomunicações. "A primeira solução deste sistema foi dado em 1853 pelo Dr. Gintl de Viena, mas tornado prática, em 1872 por Stearns." (MOREIRA, 1918:45)

Com a invenção e a aceitação do telégrafo, apareceram novas ocupações a serem oferecidas no mercado de trabalho. No terceiro quartel do século passado, as pessoas ocupadas no serviço de telegrafia já figuraram nos dados estatísticos, conforme atesta Marx, em O Capital:

"A ampliação dos meios de produção e dos meios de subsistência com decréscimo relativo do número de trabalhadores leva ao aumento do trabalho em ramos industriais cujos produtos, como canais, docas, túneis, pontes etc., só proporcionam frutos em futuro distante. Formam-se, baseados diretamente na maquinaria ou na transformação industrial geral ocasionada por ela, ramos de produção inteiramente novos e em conseqüência novos campos de trabalho. Mas, a participação deles na produção total não é importante mesmo nos países desenvolvidos. O número de trabalhadores por eles ocupados aumenta na medida em que surge a necessidade de trabalhos braçais. Como indústrias principais dessa espécie podemos considerar atualmente usina de gás, telegrafia, navegação a vapor, estradas de ferro. O censo de 1861, na Inglaterra e País de Gales, registra na indústria e gás (usinas de gás, produção de aparelhos mecânicos, agentes das companhias de gás etc.) 15.211 pessoas, na telegrafia 2.399, na fotografia 2.366, no serviço de navegação a vapor 3.570 e em estradas de ferro 70.599 entre os quais cerca de 28.000 abrangendo os cantoneiros mais ou menos permanentes, sem qualquer preparação profissional, e todo o pessoal administrativo e comercial. Número total de indivíduos ocupados nessas cinco industrias novas: 94.145." MARX (1982:I 510-1) (o grifo é nosso) A telegrafia, para aquela época era uma profissão nova. A construção do gráfico 3.1 pode ajudar-nos em algumas análises.

Embora a telegrafia tenha a menor participação, surgiram novas ocupações nesses novos campos de trabalho. Para o nosso objetivo: nascia uma nova profissão, o telegrafista.

No Brasil, não dispomos de dados quanto ao número de pessoas ocupadas na época de criação desse serviço, porém, de posse de outros dados, fazemos uma análise e podemos afirmar que foram criadas novas oportunidades de ocupação para as pessoas operarem o telégrafo.

Em 1866, as Américas estavam ligadas à Europa através de cabos submarinos. A imprensa tinha um meio de conduzir suas notícias, assim como os homens de negócios poderiam negociar à distância, pelo meio rápido, através das telecomunicações as distâncias encurtavam. A internacionalização da economia e dos negócios encontravam-se em um processo embrionário.

A preocupação de muitos inventores, entre eles diversos telegrafistas, era em melhorar e aperfeiçoar o telégrafo de Samuel Morse. Thomas Alva Edison (1847-1931) era um deles, um telegrafista que não se conformava com a transmissão de uma só mensagem em uma única direção. Thomas Edison dedicou-se às pesquisas e descobriu um meio, com o mesmo fio telegráfico, que transmitisse duas ou mais mensagens simultâneas, em sentido contrário.

Primeiro ele inventou o telégrafo duplex, através do qual podia enviar duas mensagens, simultaneamente, pelo mesmo fio. Mais tarde ele conseguiu aperfeiçoar o telégrafo que permitia enviar quatro mensagens por quatro manipuladores diferentes, pelo mesmo fio, duas em cada direção: o telégrafo-quadruplex.

As inovações técnicas ocorreram, cada vez mais, em maior freqüência. E, o sistema capitalista, não só na atualidade, sempre acompanhou e requereu as inovações, em termos dos métodos de produção, pela maior eficiência dos concorrentes que lograram empreender inovações tecnológicas.

Assim, novos meios, novas mudanças, ou outros métodos para produzir bens e serviços, em especial o das telecomunicações, vêm a contribuir para um aumento e melhoria na prestação de serviços, sejam as transmissões de cidade para cidade ou país para país, ou de qualquer região, - um processo de globalização - graças ao avanço tecnológico.

Ainda em relação à telegrafia, novos aperfeiçoamentos foram surgindo no uso da mesma. Jean Maurice Emílio Baudot, a exemplo de Thomas Edison, deu sua contribuição no aperfeiçoamento e no aumento de transmissões telegráficas, procurando maximizar o uso das linhas telegráficas.

Baudot foi admitido como telegrafista na Administração dos Correios e Telégrafos na França por volta de 1870. Em 1874, ele inventou um sistema conhecido como Sistema Múltiplo Baudot que permite a transmissão de dois a seis telegramas, usando o mesmo fio. "O rendimento dos apparelhos [sic] pôde atingir a 100, 150, 200 e 300 telegramas por hora com instalações duplas, triplas, quadruplas e sextuplas e mesmo o dobro de telegrammas com estas installações [sic] duplexadas, como tem sido praticado na Inglaterra e na Alemanha." (MOREIRA, 1918:63).

Nessa mesma época, Alexandre Von Graham Bell realizava pesquisas na tentativa de aperfeiçoar o telégrafo para transmissão de duas ou mais mensagens simultâneas utilizando o mesmo fio. Andara trabalhando na teoria da diapasão que permitia a transmissão de seis a oito mensagens sincronizadas utilizando um único fio, o que ele chamou de "telégrafo harmônico". Em suas pesquisas e experiências, descobriu o princípio do funcionamento do que, mais tarde, viria a ser o telefone.

Na noite de 2 de junho de 1875, Watson e Bell trabalhavam em novas tentativas com o telégrafo. Watson operava os transmissores, fazendo com que, um a um, soltassem um "lamento" e Bell, em outra sala, ia afinando as cordas dos receptores graduando-lhes o som por meio de parafusos. Súbito, Watson, ao experimentar a corda de um transmissor, puxou-a com mais força e largou-a. Como a palheta, no receptor, havia sido apertada muito forte, ocasionou um som totalmente distinto dos até então ouvidos. Bell, experiente, notou a diferença e percebeu que a corrente induzida possuía força suficiente para a sua utilização prática. E era o que ele procurava: uma corrente elétrica que variasse de intensidade do mesmo modo que o ar varia de densidade, transmitindo sons audíveis dentro de um certo espaço da corda do receptor.

O incidente veio demonstrar que o complicado aparelho que Bell imaginara para produzir uma corrente variável em intensidade era desnecessário, pois ali estava um mecanismo extremamente simples, revelando que o mesmo resultado poderia ser obtido de maneira mais fácil. Bell, então, deu a Watson a incumbência de construir o primeiro aparelho elétrico para transmissão da voz. Morria, em definitivo, para Bell, o telégrafo harmônico.

Os dois passaram todo o verão fazendo experiências e, em setembro, Bell iniciou a tarefa de redigir as especificações necessárias à obtenção da patente de seu primeiro telefone.

A primeira patente telefônica de Bell foi concedida a 7 de março de 1876, amparando o método e o aparelho para transmitir a voz e outros sons telegraficamente pelas variações da corrente elétrica, similares na forma às variações do ar, acompanhando cada palavra pronunciada ou outros sons.

Em uma exposição realizada em Filadélfia, pela comemoração dos 100 anos da independência dos Estados Unidos da América, Alexandre Graham Bell decidiu expor o seu aparelho.

Nessa exposição, encontravam-se diversas autoridades de outros países, entre elas, o Imperador do Brasil. Dom Pedro II passou a tarde percorrendo a exposição e assistindo às demonstrações. Chegando ao "stand" de Bell, ansioso por terminar e ir embora, quando D. Pedro, que já havia conhecido Graham Bell na sua escola para surdos-mudos em Boston, insistiu em experimentar o aparelho que até então, para o restante da Comissão, não merecera maior interesse. Enquanto Alexandre G. Bell ficava numa ponta do fio, no transmissor a 150 metros de distância, D. Pedro escutava, na outra ponta, nitidamente, sua voz declamando Sheakespeare: "To be or not to be...". E teria então, pronunciado outra frase famosa na história do telefone, contestada por uns, confirmada por muitos: "Meu Deus, isto fala!"

 

3.2. A Virada do Século, o início da automação no serviço das telecomunicações

A automação nos serviços de telecomunicações ocorreu no início do século XX, por um sistema conhecido como "creed-morse". Segundo (BEVAN & MACHADO, 1981:7), à medida que o sistema Morse vinha obtendo maior aceitação nos diversos meios onde a comunicação era necessária, havia sempre um crescimento do volume de tráfego, surgindo daí a necessidade de transmissões mais precisas, sem repetições de informações e também de maiores velocidades na transmissão. Isso fez com que se procurasse criar aparelhos capazes de transmitir ou receber, automaticamente, sinais de código Morse. A dificuldade em se desenvolver esses tipos de aparelhos estava no fato de o código Morse representar as diversas letras do alfabeto ou números, através de durações do sinal. Entretanto, no que diz respeito ao equipamento de transmissão, em 1901, F. G. Creed conseguiu aperfeiçoar o princípio idealizado por Wheastone e tornou realizável a automatização. Esse aparelho que permitia a transmissão automática era conhecido por CREED-MORSE e estava dividido em duas seções: um perfurador de fita e uma leitora de fita. A parte do perfurador de fita possuía um teclado semelhante ao da máquina de escrever e pressionando-se uma das teclas perfurava-se a fita, de acordo com o código correspondente.

Para se utilizar uma dessas perfuradoras, não necessitava-se de um telegrafista, porém, para receber os sinais transmitidos, via rádio, ou outro meio que necessitasse do homem como interpretador do código, ainda precisava-se do telegrafista. As agências noticiosas colocavam seus sinais no ar e os jornais interessados captavam esses sinais através de telegrafistas.

Do final do século passado à virada do século XX, os correios, agências de notícias, imprensa e transportes, através das estradas de ferro, contribuíram para difundir e incrementar os meios de telecomunicações pela telegrafia. Seja pela divisão de funções nas estações de telégrafo ou pelo uso da máquina - transmissões, com maior número de telegramas -, seja automatizada ou outro método qualquer de aumentar o rendimento do trabalho.

E, para (MARSHALL 1983:212), essa crescente subdivisão de funções, ou "diferenciação", como é chamada, manifesta-se, com respeito à indústria, sobre diversas formas, tais como a divisão do trabalho e o desenvolvimento da especialização da mão-de-obra, do conhecimento e da maquinaria, ao passo que a "integração", ou seja, o aumento das relações e a firmeza das conexões entre as diferentes partes de um organismo industrial, se manifesta no aumento da estabilidade do crédito comercial, nos meios e hábitos de comunicação por terra e mar, por estrada de ferro e por telégrafo, correio e imprensa.

Para ilustrar, no caso dos transportes via estrada de ferro, vamos partir do seguinte exemplo, que necessariamente acontecia: Um trem parte de uma estação às tantas horas, com destino à estação B; a estação A transmite à estação B a hora de partida do trem, como também as mensagens referentes ao embarque/desembarque de carga e/ou passageiros a desembarcar na próxima estação, carga e/ou passageiros em trânsito, mensagens operacionais etc. Tendo a hora de saída, a estação B estima a hora de chegada e prepara o pessoal de apoio, máquinas e equipamentos etc,- isto é, toda a infra-estrutura - para o desembarque e embarque, facilitando o desembaraço e agilizando o serviço geral da estação.

Mas, e quanto ao transporte marítimo? é de se supor, que do segundo quartel do século passado para trás, de acordo com nosso exemplo, havia diversas restrições. Se um navio partir de um porto A, através da telegrafia poder-se-ia também comunicar-se ao porto B a hora e dia de partida do navio. - No último quartel do século passado, além das linhas telegráficas, precisamente em 1874, foi inaugurado o primeiro cabo submarino ligando o Brasil à Europa -, as comunicações entre países de um continente ao outro já estavam disponíveis por cabo submarino. Porém, as viagens marítimas poderiam enfrentar tempestades, mau tempo ou outros contratempos quaisquer. Sem as comunicações com os navios, como fazer? Sem os meios de se comunicar com os navios em alto-mar tornava-se mister que fosse inventado um meio de comunicar-se à distância, sem necessidade de linhas físicas.

Na virada do século um novo meio de enviar os sinais telegráficos pelo código morse estava disponível, a TSF - Telegrafia Sem Fio via Rádio.

3.3. TSF - Telegrafia Sem Fio: a radiotelegrafia e seu início

A radiotelegrafia trata-se de um sistema para transmissão de um código telegráfico por meio de ondas eletromagnéticas, em resumo, a telegrafia sem fios. A radiotelegrafia, fundamentalmente, consiste em um emissor e um ou mais receptores. O emissor está construído de modo que, por meio de uma chave telegráfica ou apenas um manipulador, se controla o funcionamento do oscilador, à vontade, de maneira a emitir uma série de ondas curtas e compridas, às quais constituem as letras do código telegráfico (vide anexo I).

Antes da invenção do rádio, as mensagens eram enviadas via linhas físicas. Assim que foi inventado o telégrafo morse, eram usados dois fios para enviar os sinais telegráficos, em seguida suprimiu-se um fio, reduzindo-se à metade os custos com as linhas telegráficas e por fim, outro invento que não necessitava de nenhuma linha física: o rádio fora colocado em operação.

Na última década do século passado, o Padre Roberto Landell de Moura realizava suas experiências na transmissão dos sinais da telegrafia através de ondas eletromagnéticas, segundo a FEPLAM - Fundação Educacional e Cultural Padre Landell de Moura.

Ainda segundo a (FEPLAM, s/d): "Em 1887, Padre Landell é nomeado professor de história universal e capelão da Igreja Bom Fim, em Porto Alegre. É também vigário, por um ano, em Uruguaiana. Em 1892, é transferido para São Paulo, onde, um ano após, realiza [sic] a primeira experiência pública de comunicação à distância sem fios, da Av. Paulista ao Morro de Santana, presenciada por autoridades brasileiras e inglesas".

Por volta de 1895, Guglielmo Marconi (1874-1937) trabalhando em seu país, na cidade de Potechio, Itália, percebeu que o uso de uma antena elevada permitia um maior alcance em suas comunicações usando as ondas hertezianas, descobertas por Heinrich Hertz, físico alemão, as quais vinham sendo pesquisadas. Tal descoberta permitiu a transformação dessas ondas em um sistema viável de telegrafia sem fio - TSF.

Em 1896, Marconi chegou a Inglaterra e registrou a primeira patente da telegrafia sem fio do mundo, e em 1897, fundou a empresa Wireless Telegraph and Signal Co. que, em 1900, se transformou na Marconi's Wireless Telegraph Co. Ltd.

A princípio, suas comunicações atingiam em torno de 1,6 quilômetros ou pouco mais; com alguns aperfeiçoamentos, em 1899, mantinha contato com o porto de Pocle, a uma distância de 27 quilômetros. No ano seguinte ele conseguiu estabelecer uma ligação, pela T.S.F., às margens da Mancha, entre as Ilhas de Wight e o Cabo Lizard, a uma distância de 298 quilômetros.

Em 1900, Segundo a (FEPLAM, s/d), o Padre Landell de Moura obteve do governo brasileiro a patente nº 3279, concedida a um aparelho apropriado à transmissão da palavra à distância, com ou sem fios, através do espaço, da terra e da água.

Em dezembro de 1901, Marconi acompanhado do professor Fleming, físico inglês, conseguiu fazer uma transmissão cobrindo uma distância de 3.400 quilômetros.

No início deste século, instalou-se a telegrafia sem fio - TSF - nos navios. Talvez, uma das primeiras oportunidades em demonstrar a importância da nova invenção tenha sido o desastre ocorrido com o vapor "Republic", de 15.000 toneladas, que colidiu com o navio italiano "Flórida". O Radiotelegrafista Jack Binns conseguiu manter contato com a estação costeira Marconi, que transmitiu os pedidos de socorro. Jack Binns, em seguida, guiou os navios de salvamento através de um nevoeiro espesso até o navio que afundava rapidamente. Assim, 800 homens que faziam parte da tripulação e mais 900 passageiros foram salvos. Houve outras oportunidades em que pode ser demonstrada, ao mundo inteiro, a importância da Radiotelegrafia. Em outra situação: o navio Express-of-Ireland colidiu em um obstáculo e imediatamente começou a alagar-se. Passaram-se oito minutos antes que os dínamos pudessem deixar de ser utilizados, porém esse tempo foi suficiente para que o Radiotelegrafista a bordo do navio estabelecesse contato com uma estação costeira, enviando os sinais de socorro. Os salvamentos no mar tornaram-se conhecidos no mundo inteiro pelos sinais tão famosos e fáceis de serem recebidos/decifrados: S.O.S., sinal de pedido de socorro adotado pela Primeira Conferência Internacional de Radiotelegrafia, realizada no princípio deste século. Tomaram-no como uma abreviatura de "Save Our Souls" (Salvai nossas almas). Essas três letras foram escolhidas em virtude de serem facilmente identificadas ( ), três pontos - três traços - três pontos.

O desastre do navio Titanic ocorrido na noite de 14 de abril de 1912, por ser o maior navio até então construído, ficou conhecido no mundo inteiro. Foi graças aos sinais de S.O.S. enviados pelo Radiotelegrafista de bordo, que foram captados pela estação de Cape Race e por outro navio, o "Virgínia", que rumou a todo vapor para o local do desastre; assim, foram recolhidos 705 náufragos entre outros navios.

A Radiotelegrafia estava consolidada e novas aplicações foram realizadas. A partir de 1914, a radiotelegrafia, que nos enlaces ponto-a-ponto (terra-terra) e terra-mar-terra era utilizada apenas para fins pacíficos, passou a ter nova aplicação quando ocorreu a Primeira Grande Guerra. Durante o primeiro mês de guerra, os britânicos apoderaram-se de Togo, uma colônia alemã na África, onde estava instalada a mais poderosa estação de radiotelegrafia do mundo, que podia comunicar-se diretamente com Berlim a uma distância aproximada de 5.000 quilômetros. Como podemos observar, os alvos a serem atingidos, ao utilizar-se o serviço de radiotelegrafia, tomaram novos rumos.

A evolução da radiotelegrafia expandiu o uso do rádio utilizando o código morse. Outra finalidade entre muitas coisas, que tentou-se, foi indicar a direção por meio de sinais de radiotelegrafia: era o começo do nosso sistema de radar.

Nessa mesma década, por interesses bélicos, foi descoberta pelos britânicos que uma frota alemã estava deixando sua base de Wilhelmsafen, permitindo, pelos sinais de radiotelegrafia, que a esquadra inglesa assinalasse o rumo que a frota deslocava, travando a batalha da Jutlândia, a maior operação naval da Primeira Grande Guerra.

Em 1917, foi colocado um aparelho de rádio em um avião (nessa mesma época começavam a surgir as empresas de transporte aéreo), assumindo, portando, um novo campo para as telecomunicações via rádio, eliminando-se o uso de linhas físicas.

Com o aparecimento das empresas aéreas, a exemplo do transporte marítimo, surgiu a necessidade de comunicação, pelo serviço de rádio, de bordo com as estações terrestres. Para atender essa necessidade, a aviação civil serviu-se dos operadores do correio e da marinha.

Na década de 30, surge no Brasil a profissão de Radiotelegrafista de Vôo.

 

3.4. Século XX: um apanhado histórico nas telecomunicações

No início do século XX, começaram a surgir as primeiras empresas brasileiras no ramo das telecomunicações. Segundo a Embratel, até o início da segunda década do século, os serviços de telefonia e de telegrafia começaram a ser disseminados pelas principais cidades brasileiras. Surgiram as primeiras companhias telefônicas e radiotelegráficas, tais como a Companhia Telefônica Brasileira (CTB) e a Companhia Radiográfica Brasileira (Radiobrás).

Ainda na década de 20, no ano de 1922, segundo a Embratel, houve o início de uma nova etapa para as telecomunicações no Brasil. Foram introduzidos no país os serviços de telegrafia e telefonia via rádio entre o Rio de Janeiro, Nova Iorque, Roma, Paris, Londres e Berlim.

Outro uso do rádio, ainda no ano de 1922, foi para as comunicações à população via radiotelefonia, surgindo as primeiras emissoras de rádio, transmitindo em AM*: a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro (depois Roquete Pinto), a Rádio Clube do Brasil (depois Rádio Mundial) e a Rádio Educadora (depois Tamoio).

Em 1930, foi instalado o cabo telefônico submarino, com extensão de 422 quilômetros, ligando Estocolmo, na Suécia, a Abo, na Finlândia. No mesmo ano foi efetuada a primeira ligação de alto-mar, através de radiotelefonia, feita do navio Leviatan. Mais tarde, o telefone foi usado nas frentes de batalha da II Guerra Mundial.

Em 1950, as ondas de Rádio passaram a ser transmitidas acompanhadas de imagens. Em setembro de 1950 a televisão chegou ao nosso país, com a ativação da TV Difusora de São Paulo (depois TV Tupi). Em janeiro, do ano seguinte foi inaugurada a TV Tupi do Rio de Janeiro.

Em 8 de outubro de 1957 começou a operar, no Brasil, a primeira central manual de telex. No final dessa mesma década, existiam aproximadamente 1000 companhias telefônicas, com grandes dificuldades operacionais e de interligação.

Os anos 60, segundo a Embratel, foram decisivos para mudar o panorama das comunicações no Brasil. Em 1960, foi criado o Serviço Nacional de Telex, operado pelo Departamento de Correios e Telégrafos. Nesse mesmo ano, foi inaugurado o enlace de microondas entre as cidades do Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília e Goiânia.

Em 27 de agosto de 1962, a Lei 4117 instituiu o Código Brasileiro de Comunicações; criou o Conselho Nacional de Telecomunicações (Contel); autorizou o Poder Executivo a constituir uma empresa pública para explorar industrialmente os serviços de telecomunicações, postos sob o regime de exploração da União; e criou o Fundo Nacional de Telecomunicações (FNT).

Com a criação do Contel, definiu-se a política básica de telecomunicações, a sistemática tarifária e o planejamento de integração das telecomunicações em um Sistema Nacional de Telecomunicações (SNT). Segundo a Embratel:

No final da década de 60, algumas profissões voltadas para a área de telecomunicações começaram a ficar ameaçadas de extinção. Além do ROT - Radiotelegrafista de Terra - em virtude de diversas inovações técnicas, tanto nos aviões como nas telecomunicações, e de uma evolução estrutural, estava chegando ao fim uma outra profissão: O Radiotelegrafista de Vôo.

Novos meios para as telecomunicações estavam disponíveis e estava sendo diversificado seu uso: o telex, o teleprocessamentos de dados, e muito timidamente, os aparelhos de fac-símile.

Na década de 70, muitas empresas começavam a automatizar seus serviços de teletipo, radioteletipo e telex. Os profissionais de telecomunicações, muitos deles radiotelegrafistas, operavam o serviço de telex. Esses radiotelegrafistas e operadores de telex, pelo "saber-fazer", viam seus conhecimentos serem colocados e transferidos para uma máquina - o computador - que gerenciava o serviço de recepção-distribuição/transmissão de mensagens.

As ferrovias também começaram a desativar "o telégrafo de agulha" por novas tecnologias. O telégrafo de agulha que "... Em sua versão original, foi concebido com 5 teclas e igual número de galvanoscópios, e interligado através de cinco elementos da rede física. (...) o próprio inventor o simplificou, apresentando a versão de duas teclas e receptor único, versão esta que permaneceu até sua desativação total, pelas ferrovias, em meados de 70, neste século - (...)" (ARAÚJO In: DÁMBRÓSIO, 1988:216).

Nessa mesma década, com a extinção das empresas telegráficas estrangeiras e conseqüente esvaziamento do Sindicato dos Telegráficos, a proposição de associar os funcionários da EMBRATEL (fundada em 1965) e telefonistas particulares "para que pudessem se beneficiar dos Planos de Valorização Sindical" instituídos pelo Governo Federal, e a edição da Portaria 3099, de 4 de abril de 1973, criou-se a categoria profissional unificada "Trabalhadores em Empresas de Telecomunicações e operadores de Mesas Telefônicas". Os telegrafistas perdiam forças, e a substituição de novos meios de telecomunicações: telex, teleprocessamento e fac-símile começavam a destruir um antigo meio de produção de serviços, isto é, as telecomunicações via morse. Dentro da visão schumpeteriana, isso está previsto: a destruição de um antigo meio de produção de bens e serviços por uma nova tecnologia ou outro método mais moderno de produção.

3.5 - As empresas de telecomunicações

A EMBRATEL foi criada em 16 de setembro de 1965, e em 1968 já apresentava suas primeiras realizações com a ligação interurbana de alta capacidade em microondas entre São Paulo e Porto Alegre, e em 1969, com a estação terrena de Tanguá - RJ.

O CONTEL - Conselho Nacional de Telecomunicações - traçou a política de prioridade de execução de implantação da EMBRATEL, com o mesmo objetivo de dar dinamismo à empresa recém-criada. Segundo a Constituição promulgada em 24 de janeiro de 1967, estabelecera-se que "(...) compete a União explorar, diretamente ou mediante autorização ou concessão os serviços de telecomunicações". Com a evolução tecnológica, como também a evolução progressiva do setor de telecomunicações, e ainda sua importância para a economia, tornou-se impossível ao CONTEL desempenhar todas as funções de maneira global; surgiu a necessidade da criação do Ministério das Comunicações, que teve sua criação corroborada pelo Decreto-Lei nº 200, de 25 de fevereiro de 1967. Segundo BEVAN & MACHADO (1981:894-6), a EMBRATEL e as diversas concessionárias do serviço telefônico passaram para a esfera de ação do Ministério das Comunicações, que sentiu a necessidade de uma organização mais ampla nessa área, a de telecomunicações, em virtude de grandes problemas surgidos, como:

a) Dificuldades na coordenação e supervisão dos planos de expansão das diferente companhias;

b) Fiscalização, em âmbito nacional, da qualidade dos serviços;

c) A dificuldade em certo entrosamento com a indústria no setor de telecomunicações, em que o planejamento industrial, tanto a médio como a longo prazo, sofria prejuízo em virtude da instabilidade da demanda, acrescido da dificuldade das empresas operadoras em conseguir financiamento em tempo e condições favoráveis.

O Ministério propõe uma nova estrutura para o setor, que foi aprovada pelo Poder Executivo, através da Portaria Ministerial n. 420, de 24 de setembro de 1971, que acabou com diversas empresas operadoras - telecomunicações -, o que contribuiu para desencadear a demissão de milhares de telegrafistas.

Uma das conseqüências foi a criação da TELEBRÁS - Telecomunicações Brasileiras S/A. -, de acordo com a lei n. 5.792, de 11 de julho de 1972, tendo sua constituição sido autorizada pelo Decreto Presidencial n. 70.914, de 2 de agosto de 1972, concretizada com a realização da Assembléia Geral da Constituição, aprovada pela Portaria n. 48l, de 9 de novembro de 1972, do Ministério das Comunicações. (BEVAN & MACHADO, 1981:896)

O Sistema TELEBRÁS, segundo PASTE (1997: 37-38), até 1997 era constituído pela holding TELEBRÁS e por 28 empresas controladas, prestadoras de serviços públicos de telecomunicações: uma operadora de longa distância, a Empresa Brasileira de Telecomunicações S/A EMBRATEL e 27 empresas prestadoras de serviços locais e intra-estaduais.

Até o início da década de 70, por volta de 1972, existiam no Brasil 927 entidades explorando os serviços públicos de telecomunicações, sem nenhuma integração sistêmica e com baixíssimo grau de padronização e qualidade. Várias dessas empresas eram privadas, destacando-se a Companhia Telefônica Brasileira (CTB), de capital canadense, que operava nos Estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo.

O número de operadoras de telecomunicações no País, segundo PASTE (1997: 38), para efeitos comparativos, em dezembro de 1972 e em dezembro de 1996 está sintetizado na tabela 3.1:

Tabela 3.1 - Empresas do Sistema Telebrás e Independentes -

1972 e 1996  
Operadoras
1972
1996
Sistema TELEBRÁS
8
28
Independentes
919
4
Brasil
927
32
Fonte: PASTE (1997)    
"As quatro operadoras independentes são a CRT Companhia Riograndense de Telecomunicações, controlada pelo Governo do Estado do Rio Grande do Sul, que atua na quase totalidade deste Estado; a CTBC - Companhia de Telecomunicações do Brasil Central, empresa privada com sede em Uberlândia, MG, atuando em partes dos Estados de Minas Gerais, São Paulo, Goiás e Mato Grosso do Sul; a SERCOMTEL S/A Telecomunicações, atuando no município de Londrina, Estado do Paraná; e a CETERP Centrais Telefônicas de Ribeirão Preto S/A, atuando em Ribeirão Preto, Estado de São Paulo, estas duas últimas vinculadas às prefeituras municipais. (PASTE, 1997:38)

Nessa época, década de 70, a situação dos telegrafistas passou a ficar ainda mais dramática. A situação ficou pior para os que trabalhavam em empresas de telecomunicações quando a Radiobrás teve sua concessão cancelada, seguindo-se o fechamento da Itacable, ITT e a Tele-Rádio (vide anexo III). As concessões foram automaticamente canceladas e passadas então à EMBRATEL; enquanto isso, cerca de três mil telegrafistas só recebiam indenização parceladamente, sem que nenhuma recolocação profissional fosse feita. (JORNAL O Estado de São Paulo, 13 jan. 1972).

Abaixo, fazemos uma pequena síntese sobre a história de algumas dessas empresas.

Itacable, de origem italiana, teve o cancelamento de sua concessão oficializada em 07 de janeiro de 1972, pelo Presidente da República; a Itacable preparava sua total liquidez. Desde setembro de 1970, ela não funcionava mais, havia indenizado cerca de 500 empregados no Rio de Janeiro, Santos, São Paulo e Recife. (JORNAL O Estado de São Paulo, 13 jan. 1972).

A Itacable foi fundada no Brasil em 1924, quando funcionava com o cabo telegráfico que ia até Fernando de Noronha. A empresa realizou seus serviços com tráfego interno e externo. Na época, 1972, o cabo telegráfico de sua propriedade ficara abandonado e suas atividades fora da Itália foram todas encerradas. Alegava seu representante no Brasil que a maioria dos países estava nacionalizando as comunicações.

A ITT World Communications, RCA Global Communications, WUI Western Union International, mantinham escritórios e representações no Brasil até o início da década de 90.

A Radiobrás e ITT - Comunicações Mundiais S/A foram fechadas em 1969 pela ECT - Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos - e pela EMBRATEL.

Fechadas essas empresas, a classe dos Radiotelegrafistas e demais profissionais do ramo ficaram em um dilema, pois muitos profissionais com pouco mais de 40 anos de idade, e com menos de 25 anos de contribuição para a Previdência Social, portanto sem direito à aposentadoria, deveriam continuar trabalhando. Porém não conseguiam colocação.

A ECT não empregava mais esses homens porque não tinha verba ou instrução oficial. Já a EMBRATEL alegava que a maioria deles ultrapassava os 35 anos de idade, o que impedia o seu aproveitamento. As empresas construtoras - barragens, estradas, terraplanagem -, os bancos, as empresas em geral que possuíam seus serviços de telecomunicações através de radiotelegrafia, poderiam absorver parte desse contingente desempregado, mais o pessoal de vôo que ia sendo dispensado. Porém, o telex começava a crescer, e o serviço de telefonia passou a se expandir. E também começou a haver uma expansão nas linhas telefônicas/telex oferecidas.

Observamos que a partir da década de 70 o número de pessoas ocupadas em relação ao número de terminais telefônicos convencionais instalados passou a cair ano após ano, conforme tabela 3.2. Em 1973, para cada 1.000 terminais convencionais instalados, a relação era para 35 pessoas empregadas. Em 1994, essa relação caiu para 7,9 empregados.

Tabela 3.2 - Pessoal ocupado por terminais convencionais

instalados - 1972-1994  
Pessoal Total
Empregados por 1000
Ano
(mil empregados)
terminais convencionais
Instalados
1972
...
...
1973
57,0 35,0
1974
65,9 34,0
1975
74,5 33,6
1976
79,7 27,0
1977
81,5 22,0
1978
86,8 21,0
1979
88,7 18,9
1980
90,6 18,0
1981
91,9 17,0
1982
93,6 16,2
1983
94,7 15,3
1984
96,5 14,0
1985
97,7 14,0
1986
97,1 13,2
1987
98,8 12,8
1988
98,0 11,9
1989
98,3 11,1
1990
93,1 10,0
1991
89,1 9,1
1992
89,6 8,4
1993
93,6 8,3
1994
95,6 7,9
Fonte: Telebrás (apud FITTEL)
Em relação aos Radiotelegrafistas, se de um lado se desempregavam esses profissionais em virtude do aumento das máquinas de telex em uso, por outro lado criou-se postos de empregos para operadores de telex, e ainda muitos radiotelegrafistas passaram a ser aproveitados no teletipo/telex e radiotelefonia Foi o que aconteceu nas empresas de aviação comercial, nos bancos e em diversas empresas.

Algumas empresas aéreas, como a Cruzeiro do Sul, VARIG, VASP, tinham seus sistemas de telecomunicações privados, através de teletipo/telex; os bancos também possuíam suas centrais privadas. O serviço de rádio era feito com agências em localidades que não possuíam ainda infra-estrutura em telecomunicações; tais mensagens eram coletadas por uma central coletora, como exemplo citamos a situação do BRADESCO, Banco Brasileiro de Descontos, que através das estações da Cidade de Deus em Osasco - SP, Araçatuba - SP e outras estações coletoras, recebiam, isto é, "coletavam" as mensagens de outras regiões e as retransmitiam, via telex, de sua rede privada a outras regiões. Quando necessitava entrar na RNTX - Rede Nacional de Telex -, faziam-no. Situação semelhante acontecia com outros bancos. As companhias construtoras até hoje fazem uso do rádio; a Marinha Mercante prepara seus próprios Radiotelegrafistas.

Na década de 80, logo no início, podemos afirmar que a demanda de mão-de-obra para operador de telex - no Brasil - tenha atingido seu ponto máximo. Com o aparecimento de microcomputadores, a demanda de mão-de-obra foi se reduzindo, pois os mesmos passaram a fazer parte do que era feito por operadores de telex, fazer a seleção, isto é, fazer a chamada ao número desejado e transmitir a mensagem.

No final dos anos 80, uma máquina que até então não era tão conhecida, porém com algumas transformações e evoluções técnicas veio facilitar ainda mais o serviço de telecomunicações: o Fac-símile ou simplesmente FAX, com suas transmissões fiéis aos documentos originais.

Essa máquina tão fácil de operar tornou-se disponível e o seu uso, seja nas empresas ou no uso doméstico e está substituindo os aparelhos de telex. A oferta de emprego para Operador de telex passou a decair, tornando quase inexpressiva, com algumas ofertas de emprego esporádicas no início da década de 90.

Em relação ao número de telex ativados no país, verificou-se que entre os anos de 1988 a 1995, o número de terminais de telex ativados do serviço nacional de telex no Brasil teve o seguinte desempenho conforme a tabela 3.3: no ano de 1989 houve um crescimento de 14% em relação ao ano de 1988, em 1989 o crescimento foi de 5% em relação ao ano imediatamente anterior. Nos anos seguintes, iniciou-se um processo de queda acentuada. Em 1991, a queda foi de 7,2%; em 1992 de 28,2%, em 1993 a queda voltou, em valores percentuais, semelhante à ocorrida em 1991, de 7,7%. Nos dois anos seguintes, as quedas foram expressivas: 17,7% e 23%. Com uma queda acumulada em 1998, em relação a 1988, em 90,4%. Aproximadamente a décima parte do número de terminais ativados no final da década anterior. Se cai o número de aparelhos de telex ativados, a conseqüência e a redução de operadores de telex para operá-lo.

Tabela 3.3 - Terminais ativados do serviço de telex
Nacional no Brasil - 1988-1998
Ano
Terminais ativados no serviço de telex nacional
1988
105.311 
1989
119.763 
1990
125.814 
1991
116.776 
1992
83.872 
1993
77.401 
1994
63.669 
1995
49.054 
1996
29.462
1997
16.662
1998
10.132
Fonte: Anuário Estatístico do Brasil, IBGE, 1989, 1992, 1994 e 1998.
  Quanto ao pessoal ocupado, vide as tabelas 2.4 e 2.5, capítulo 2.

3.6 - As telecomunicações e as privatizações nos anos 90

A década de 90 foi marcada pelas privatizações das empresas na área de telefonia.

As telecomunicações, a partir da metade dessa década, têm consolidado as tendências observadas desde o seu início, segundo o Programa de Recuperação e Ampliação do Sistema de Telecomunicações e do Sistema Postal - PASTE (1997), em direção ao desenvolvimento da Sociedade da Informação. De fato, tem se observado a tendência no sentido da construção de uma infra-estrutura de comunicações de grande capacidade e alta velocidade, apta a cursar tráfego multimídia (voz, dados, textos, imagens e vídeo), com o que se espera o desenvolvimento de um mercado de informação eletrônica, em especial no segmento de negócios, de dimensões ainda não adequadamente estimadas.

Segundo MOTTA (1997: 5-6), "A tecnologia da informação tornou-se a peça fundamental do desenvolvimento da economia e da própria sociedade. Isto significa que o atraso relativo do nosso país deverá ser necessariamente superado, como condição para retomar o processo de desenvolvimento. Não se trata apenas de alcançar uma maior difusão de um serviço já existente, por uma questão de eqüidade e justiça. Trata-se de investir pesadamente em comunicações, para construir uma infra-estrutura forte, essencial para gerar as riquezas de que o país necessita para investir nas áreas sociais".

"O setor das telecomunicações é hoje, sem dúvida, um dos mais atraentes e lucrativos para o investimento privado, em nível internacional. Trata-se de um dos setores líderes da nova onda de expansão econômica, que se formou a partir da chamada terceira revolução industrial. Pode-se contar que não faltarão investidores interessados em expandir essa atividade no mundo, em geral, e num país com as dimensões e o potencial do Brasil, em particular. O problema, que não é só do Brasil, é encontrar uma fórmula para a organização institucional do setor de telecomunicações que, ao mesmo tempo em que promova fortemente os investimentos privados, reforce o papel regulador do Estado e reserve ao setor público a atuação em segmentos estratégicos do ponto de vista social ou do interesse nacional".

"De 1995 para cá, paralelamente à execução dos programas e projetos incluídos na versão 1 do PASTE, foram sendo implementadas as demais diretrizes de gestão, quais sejam: a reprofissionalização dos quadros técnicos e gerenciais das empresas do Sistema TELEBRÁS e da ECT; a regulamentação dos serviços de telecomunicações; a adoção de um pacto ético para o setor; a modernização dos serviços postais; e a implementação de novo modelo institucional para a área de telecomunicações, incentivando a competição na exploração dos serviços, com intensa participação de capitais privados e implantação do cenário de transição para privatização integral da operação das telecomunicações. Com isso, e principalmente em decorrência da última das diretrizes citadas, o cenário do setor de comunicações no Brasil alterou-se profundamente."

O processo de abertura do mercado brasileiro de telecomunicações, iniciado com a Emenda Constitucional nº 8, de 1995, associado à estabilidade econômica obtida com o Plano Real, criou um clima extremamente propício para os investimentos no setor, reforçando assim o seu dinamismo.

O projeto da nova Lei Geral de Telecomunicações, foi encaminhado pelo Governo ao Congresso Nacional em dezembro de 1996.

Em dezembro de 1997, foi publicada, pela ANATEL - Agência Nacional de Telecomunicações -, a Consulta Pública Nº. 002/97, de 4 de dezembro de 1997, que trata do processo de privatização das empresas de telefonia do país. (Vide Anexo IV)

É importante ressaltar que nunca houve unanimidade na decisão de "venda" das telecomunicações brasileiras, a discussão esteve mais centrada em torno das empresas do Sistema Telebrás.

O processo de privatização do Sistema Telebrás encerrou-se em 29 de julho de 1998, quando esse Sistema foi privatizado. O preço pago pela privatização, foi de R$ 22,057 bilhões, somado ao valor arrecadado pela banda B, de R$ 8 bilhões, superando os R$ 30 bilhões previstos pelo Ministro das Comunicações, Sérgio Motta. (RNT - Revista Nacional de Telecomunicações, n° 229, - Set. 1998)

Com as privatizações e a redução dos custos da nação para com as empresas estatais espera-se um crescimento para nação e em conseqüência a geração de empregos.

Os anos 90, em se tratando das telecomunicações, foram marcados por evolução rápida e dinâmica, seja através da internet, dos "pagers", da telefonia celular e mesmo a telefonia fixa.

Os bancos, graças ao serviço de telecomunicações, instalaram por todo o país os caixas de autoatendimento com a finalidade de facilitar a vida das pessoas; os supermercados passaram a utilizar os códigos de barras e a leitura ótica, com isso, agilizando o atendimento ao cliente e com o mesmo equipamento - caixa - efetuando uma série de operações, desde a utilização de cartões de bancos (dinheiro plástico), cálculo de prestações, juros etc. dispensando um sem número de pessoas para efetuarem esses cálculos, além do recurso desses equipamentos transmitirem para um computador central informações como, baixa do estoque, cálculos contábeis, controles etc. graças ao serviço de teleprocessamento, o que foi possível com o desenvolvimento dos protocolos de comunicações.

Essa utilização foi generalizada a toda economia, pois, por exemplo, no restaurante, quando o garçom ou o caixa digita os códigos do cardápio, uma pequena impressora copia na cozinha, a ordem de serviço e, em alguns casos, uma segunda cópia vai para o controle da atendente do balcão: a Rede Habib's utiliza desse tipo de serviço.

Dessa forma, a vida das pessoas ficou mais fácil, pois o tempo gasto em filas de atendimento caiu. A vida nos lares ficou mais fácil, pois é possível acionar o portão automático à distância; o controle remoto da televisão, dos aparelhos de som, vídeos etc.

Todo esse conforto exige aparelhos novos e sofisticados, a evolução da tecnologia está processando com maior velocidade. Os microcomputadores de 5 ou 6 anos atrás foram sucateados, a série XT desapareceu, "foi destruída", em seu lugar entrou outra série, AT, destruindo uma antiga tecnologia. As séries AT-286, 386, 486, 586 também desapareceram entrando outras séries - conhecidas como tecnologia de ponta -, a série Pentium, a série AMD K-6. Essas novas séries destruíram as antigas, sucateando-as, inovando, oferecendo maiores recursos em múltiplos usos. É "um processo de destruição criadora".

Hoje podemos dispor de vários endereços, os quais podemos ser encontrados: O residencial, o telefone fixo, o telefone celular, o fac simile, o pager e o correio eletrônico "e-mail".

Em nome do conforto, podemos desfrutar dos recursos da tecnologia - para o nosso bem-estar -, seja na medicina, no sistema bancário, nos supermercados, no lar, todas essas facilidades estão à disposição em razão da infraestrutura das telecomunicações.

Tudo isso porque as necessidades humanas são ilimitadas. Novas necessidades vão surgindo e a evolução tecnológica, por não ser estática, oferecerá condição na oferta de novos bens e serviços. Novos meios e novos métodos de produção surgirão destruindo os antigos meios e métodos de produção. Esse fluxo estará sempre presente na economia.

Para atender à demanda dos bens e serviços voltado para as telecomunicações têm se criado diversos empregos especializados.

Nos setores com um alto grau de tecnologia incorporado ao seu processo de trabalho, o processo de destruição criadora é mais rápido, é o caso das telecomunicações, aviação comercial etc.


Pedido de Autorização ao Professor Paulo Vieira Netto
para publicar seu trabalho na página de Landell
r. Luiz Neto. Autorizo sim, a colocar o material abaixo em teus sites. Um abraço (73)Paulo Vieira Neto  
----- Original Message -----
From: Luiz Netto
To: Paulo Vieira NetoSent: Tuesday, February 12, 2002 8:57 PMSubject: Autorização para colocar sua dissertação de mestrado na página de Landell

Caro Sr. Paulo,

Grato pela visita à página de Landell e pelas palavras elogiosas ao site.Estou lhe escrevendo depois de termos falado por telefone, e quero pedir-lhe autorização para colocar a matéria que me enviou no anexo,sua tese de mestrado,

O DESAPARECIMENTO DE UMA PROFISSÃO:
O RADIOTELEGRAFISTA DE VÔO - EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA E DESEMPREGO NAS TELECOMUNICAÇÕES
 
 
pois é uma matéria de interesse relacionada à área de telecomunicãções e particularmente como esta página é bem freqüentada por radioamadores, estes tem um particular interesse ao que se refere à radiotelegrafia e acredito que irão apreciar muito seu trabalho.
Grato pela sua atenção.
Luiz Netto  

E-mail enviado pelo Sr. Paula Vieira Netto:

 Sr. Luiz Netto,

Visitei a página - com orgulho - e procurei divulgá-la. Não é surpresa perceber que muitas pessoas não conheçam a história do padre Landell de Moura.Minha primeira profissão foi radiotelegrafista. Desapareceu, motivo que defendi uma dissertação de mestrado falando [pouco, em minha opinião, sobre o assunto].Estou enviando o capítulo 3. da referida dissertação,Sou Economista, mestre em Economia - PUC/SP - professor em 4 Faculdades [duas delas, de padres]: Salesianos e Camiliana. Paulo Vieira Neto