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PORTO ALEGRE 
Quem foi
Túmulo de Landell de Moura é violado 
Sepultura de gaúcho ilustre, precursor das telecomunicações, sofreu tentativa de arrombamento na Capital 

MARCELO GONZATTO 

 
Apreensão e alívio: padre Antônio Lorenzatto (D) acompanhou o trabalho dos peritos do Departamento de Criminalística (foto Valdir Friolin/ZH) 

        Por pouco os restos mortais de um dos gaúchos mais ilustres do século 20 não foram roubados.

        A sepultura do padre Roberto Landell de Moura, precursor das telecomunicações, sofreu uma tentativa de arrombamento. Ontem à tarde, os ossos foram retirados da capela na gruta de Nossa Senhora de Lourdes, no bairro Glória, em Porto Alegre, para serem depositados em local mais seguro.

        Funcionários da loja de artigos religiosos existente junto à gruta perceberam na segunda-feira que o nicho onde está a ossada do padre havia sido mexido. Eles notaram pedaços de cimento no chão da capela que guarda os restos de vários párocos gaúchos. Além disso, a placa de pedra que lacra o nicho estava solta. Como os empregados ouviram que os restos mortais seriam transferidos para um memorial em homenagem ao pároco, pensaram que o capelão da gruta, o padre Antônio Lorenzatto, estivesse a par de tudo. Só na manhã de ontem foi desfeito o mal-entendido e chamado o Departamento de Criminalística (DC).

        Há mais de três décadas, os restos de Landell foram removidos para o chamado ossário da gruta. Os ossos são colocados dentro de urnas de cimento construídas umas sobre as outras junto às paredes, fechadas por uma placa de pedra. Até a chegada dos agentes do DC, às 16h, Lorenzatto não sabia se os ossos estavam no nicho ou se haviam sido roubados. O capelão não quis mexer na sepultura para não comprometer a perícia.

        Acredito que a invasão tenha ocorrido no máximo há duas semanas, pois antes disso estive aqui e tudo estava normal garante o padre.

        Quando os peritos abriram o nicho e encontraram intacto um muro de tijolos, provavelmente a razão pela qual os invasores não conseguiram levar a ossada, o padre teve uma crise de choro. Emocionados, ele e o presidente da Fundação Padre Landell de Moura, Ernani José Machado, rezaram um Pai-Nosso. Machado acredita que a intenção dos ladrões era pedir resgate.

        Esses ossos não pertencem à família ou à diocese, pertencem à humanidade afirmou o padre. 

        Os peritos desfizeram a murada de tijolos e abriram a urna para se certificar de que a ossada estava lá. Para evitar outro susto, Lorenzatto tomou uma decisão radical: levou os ossos para seu quarto para guarnecê-los à noite. Hoje, com o auxílio dos familiares de Landell de Moura, deverá ser definido um novo local para depositar os restos mortais do padre escolhido pela população como um dos gaúchos mais importantes do século 20, em promoção da RBS.

        Uma das possibilidades é no cemitério junto à Santa Casa, no Centro afirma o sobrinho do pároco e provedor da irmandade do Arcanjo São Miguel e Almas, Guilherme Landell de Moura.

        Os ataques de vândalos são comuns na área da gruta. No próprio ossário, foram deixadas inscrições com nomes de pessoas em três nichos. Além disso, por duas vezes as cruzes do cemitério, no lado de fora da capela, com os nomes dos padres enterrados, foram trocadas de lugar. Isso poderia impedir a identificação dos restos mortais, se não houvesse um mapa com a localização original.


 
Túmulo de Landell de Moura é violado
Quem foi 


        O padre, inventor e cientista Roberto Landell de Moura nasceu em Porto Alegre, em 1861. Até sua morte, 67 anos mais tarde, conviveu com a incompreensão da sociedade brasileira. Suas pesquisas científicas, que o levaram a ser um dos precursores das telecomunicações no mundo, ao ser a primeira pessoa a transmitir o som da voz humana sem o uso de fios, em 1894, lhe valeram imputações de loucura e bruxaria. Alguns até o acusavam de ter parte com o demônio. Seu laboratório chegou a ser destruído por fanáticos em Campinas, São Paulo.

        Hoje, porém, muitos pesquisadores alegam que suas descobertas foram tão importantes que seria ele o verdadeiro pai do rádio, e não o italiano Guglielmo Marconi. Sem apoio em seu próprio país, porém, em 1910 Landell de Moura viajou para os Estados Unidos para registrar alguns de seus inventos, como o transmissor de ondas, o telégrafo sem fio e o telefone sem fio. Além disso, inventou a válvula de três eletrodos, uma peça fundamental para o desenvolvimento da radiodifusão.

        Alheio à polêmica sobre seu trabalho, Landell de Moura, que comandou as paróquias do Menino Deus e do Rosário, em Porto Alegre, costumava dizer que seu único ideal era provar que ciência e religião podiam conviver pacificamente. Ele mesmo deu prova disso ao graduar-se em Física e Química na Universidade Gregoriana, em Roma.

        Em 1967, foi criada em Porto Alegre a Fundação Padre Landell de Moura, que tem o objetivo de promover a educação por meio do som e da imagem.



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