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HEINRICH HERTZ
(1857-1894)

HEINRICH HERTZ, físico alemão, professor da Universidade de Bona, construiu o primeiro
oscilador capaz de transmitir uma onda eletromagnética utilizando uma bobina de Ruhmkorff.
A bobina de Ruhmkorff tem as extremidades do induzido ligadas a duas hastes metálicas de 1 metro de comprimento, colocadas no prolongamento uma da outra, terminadas nas extremidades próximas por dois botões metálicos muito polidos e nas outras extremidades por duas esferas metálicas de 15 cm de diâmetro. Estas esferas desempenham aqui o papel de armaduras de um condensador de muito pequena capacidade; e as hastes metálicas o papel de self-indução.Quando a bobina de Ruhmkorff começa a funcionar, o oscilador vai se carregando pouco a pouco até que chega o momento de saltar uma faísca entre os botões. A partir desse momento a descarga oscilante começa e vai amortecendo para se reproduzir a cada vez que o circuito indutor se interrompe pelo interruptor.




As ondas elétricas produzidas pelo oscilador de Hertz, em virtude de seu elevado potencial e altíssima frequencia, exercem à distância poderosas ações indutoras; entre os corpos metálicos próximos do oscilador produzem-se faiscas elétricas, vendo-se saltar moedas, chaves e outros pequenos objetos que se encontrem a pequenas distâncias uns dos outros, isolados ou não, existentes no laboratório onde estiver funcionando o oscilador.
 

O primeiro aparelho de rádio que dificilmente teriamos aceite como tal era um Diapasão Elétrico, mediante o qual se propunha Hertz demonstrar a existência física das Ondas Eletromagnéticas, cuja
existência hipotética podia inferir-se das Equações Maxwellianas. Com seu estranho aparelho, Hertz não só descobriu em 1888 as ondas de rádio (denominadas depois Hertzianas), mas também mediu o comprimento e a velocidade das mesmas ondas e demonstrou que podiam ser refletidas, refratadas e polarizadas. Na simples e encantadora dissertação que aqui reproduzimos, HERTZ explica com toda a modéstia a sua contribuição à solução dos problemas do eletromagnetismo e da ótica, combinados por fim num único e mesmo campo.

A "série ondulatória" não só inclue as Ondas Luminosas e as Radiais (eletromagnéticas) como também as calóricas, os raios infravermelhos, ultravioletas, cósmicos e os raios X.
Em setembro de 1889 Hertz dirigiu-se em alemão à sexagésima segunda assembléia da Associação
Alemã para o Progresso das Ciências Naturais e da Medicina, na cidade de Heidelberga. A tradução inglesa desta conferência característica publicou-se em "The Miscellaneous Papers of Heinrich Hertz" (The Macmillan Company, Londres e Nova York).

SOBRE AS RELAÇÕES DA LUZ E DA ELETRICIDADE


(Escreve o próprio Hertz)

1-
Quando alguém fala das relações entre a luz e a eletricidade, o profano nestas matérias pensa imediatamente na luz eletrica. Mas não se trata desta, na presente conferência. Ao físico vêm-lhe a mente uma série de delicadas reações no plano de polarização ou a alteração da resistência de um condutor pela ação da luz. Porém, nestes casos a eletricidade e a luz não se juntam diretamente: intervém um agente intermediário: a matéria ponderável.
Também não trataremos deste grupo de fenomenos. Entre os ditos agentes há ainda outras relações mais, relações num sentido mais íntimo e estreito que as antes mencionadas. Vou defender a tese segundo a qual a luz, seja de que espécie for, é um fenomeno elétrico: tanto a luz solar, como a de uma candeia ou a de um pirilampo.
2-
Suprimamos a eletricidade do mundo, e teremos acabado com a luz; tiremos do mundo o éter luminicio e deixarão de cruzar o espaço as ações elétricas e magnéticas. Tal  é a nossa tese. Não é coisa de hoje nem de ontem: tem já atrás de si uma longa história. Investigações como as levadas a cabo por mim, não são senão um elo de uma longa cadeia. E não só do elo em particular, como da cadeia inteira, é do que desejo falar-vos.
Devo confessar que não é facil falar acerca destas matérias de maneira simultâneamente inteligível e exata. Os processos que temos que descrever realizam-se no espaço vazio e no éter livre. Não podemos pegá-los com as mãos, escutá-los com o ouvido ou vê-los com os olhos. Falam às nossas intuições e conceitos; aos nossos sentidos não dizem quase nada. Por isso trataremos de deitar a mão, sempre que seja possível, às intuições e conceitos que já possuímos. Antes de passar mais à frente, perguntemo-nos, pois, que sabemos realmente acerca da luz e da eletricidade; e, em seguida, indagaremos que têm que ver uma com a outra.
3-
Assim, pois, que é a luz? Desde os tempos de Young e de Fresnel sabemos que é movimento ondulatório. Conhecemos a velocidade destas ondas, conhecemos o seu comprimento, sabemos que são ondas transversais; em suma, conhecemos perfeitamente as relações geométricas do movimento ondulatório da luz. A possibilidade de que tal teoria chegasse a ser refutada é, para o físico, coisa inconcebível; já não podemos conservar a menor duvida quanto a esse ponto. É moralmente certo que é verdadeira a teoria ondulatória da luz; e não menos certas são as conclusões que, necessáriamente, se seguem a ela. Portanto, é certo que todo o espaço que conhecemos não está
vazio, mas cheio de uma substancia, o ETER, que pode fazer-se vibrar. Mas, se é claro e evidente o conhecimento que temos das relações geométricas dos processos que ocorrem na substância citada, são muito vagas as nossas idéias acerca da natureza física dos tais processos e não são de todo coerentes os postulados que admitimos acerca das propriedades físicas da tal substância.
4-
Ao principio, por analogia com o som, pensou-se sem mais nem menos que as ondas luminosas eram ondas elásticas, e como tais foram tratadas. Mas o fato é que as únicas ondas elásticas que conhecemos se dão nos fluídos e são  ondas longitudinais. Não conhecemos ondas elásticas transversais em fluídos. Mais ainda: nem sequer são possíveis, pois estão em contradição com a natureza do estado líquido e gasoso. Por isso os homens se viram forçados a sustentar que o Eter que enche o espaço se conduz como se fosse um Corpo Sólido. Mas quando passaram a considerar e a tratar de explicar a trajetória dos astros no firmamento, viram-se obrigados a conceder que o éter se conduz como um fluído perfeito. Cotejando ambas as informações, encontramo-nos mergulhados em enextricável e penosa  contradição, que desfigura as explicações da ótica, magnificas nos restantes sentidos.
Em vez de nos empenharmos em dissimular semelhante palha, recorramos à eletricidade. Talvez ao estudá-la encontremos algum meio para resolver a dificuldade.
5-
Mas que é a Eletricidade? Pergunta esta simultâneamente importante e árdua. Interessa tanto ao profano como ao homem da ciência. A maior parte dos que fazem a pergunta, nem por sombras duvidam da existência da eletricidade. O que pedem é uma descrição desta, uma enumeração e classificação das pecularidades dessa maravilha a que chamamos eletricidade. Ao homem da ciência, a pergunta põe-se antes desta maneira: existe isso a que chamamos eletricidade? Não podem os fenomenos elétricos, como tantos outros, reduzirem-se às propriedades do éter e da matéria ponderável? Distantes estamos de poder dar a tal pergunta uma resposta absolutamente afirmativa. Grande papel desempennha nos nossos conceitos essa coisa que concebemos como eletricidade. As i'deias tradicionais de eletricidades que mutuamente se atraem e repelem e que estão dotadas da propriedade de atuar a distância, à maneira de uma faculdade espiritual, são idéias a que estamos acostumados e às quais temos certa afeição.
6-
Na atualidade dominam indiscutivelmente como formas comuns de nos exprimirmos. À época em que se formaram estes conceitos foi a época em que obteve o seu maior triunfo a lei newtoniana da gravitação universal, época em que todos estavam acostumados à idéia da ação à distância. As atrações elétricas e magnéticas submetiam-se à mesma lei que a gravitação universal; não há que nos assombrarmos, pois, que os homeens acreditassem que o simples postulada da ação à distância bastava para explicar todos estes fenomenos e para os reduir à sua última causa inteligível. As coisas mudaram de aspecto no presente século, ao se conhecerem as relações entre a eletricidade e o magnetismo, porque elas são múltiplas até ao infinito e nelas desempenhham papel importante o movimento e o tempo. Foi necessário aumentar o número das ações à distância e aperfeiçoar a forma das mesmas.
Desta maneira, a teoria foi perdendo lentamente a sua simplicidade e a sua probabilidade física. Trataram os homens de compensar essa falta procurando leis mais simples e compreensíveis, denominadas leis elementares. O exemplo mais importante das tais leis encontramo-lo na famosa lei de Weber.
7-
Seja qual for a opinião que tenhamos formado da sua exatidão, temos de reconhecer que é uma tentativa que, no conjunto, constitui um sistema compreensivo e cheio de atrativos, em cujo círculo mágico ficaram presos para sempre aqueles que se deixaram atrair. E, se o rumo assinalado é falso, a verdadeira orientação não a podia dar senão um homem de inteligência extraordináriamente aberta, um homem que tomasse como ponto de partida o que havia visto por si mesmo e não o que tinha ouvido, aprendido ou lido. Esse homem foi  Faraday. Sem dúvida Faraday tinha ouvido dizer que, ao eletrizar-se um corpo, alguma coisa entra nele, mas viu que as mudanças que ocorrem não se fazem sentir dentro, mas sim fora. Ensinaram a Faraday simplesmente que as for;cas atuam através do espaço; mas viu que desempenha um papel importante a classe particular de matéria que  enche o espaço através do qual se supõe que atuam as forças. Faraday tinha lido que a existência das eletricidades era coisa certa; e que; pelo contrário, se discutia muito acerca das forças desenvolvidas por elas, mas viu que os efeitos das ditas forças se manifestavam de maneira evidente e, ao contrário, nada pôde ver ou aperceber a respeito das próprias eletricidades.
8-
Desta maneira se formou um conceito totalmente diferente e oposto acerca do assunto. Para ele, as realidades verdadeiramente presente e tangíveis foram as forças  magnéticas e elétricas, e as coisas cuja existência pôde por-se em dúvida foram, para ele, a eletriciadade e o magnetismo. À sua inteligência apresentavam-se-lhe no espaço as linhas de força que assim denominava as forças consideradas independentemente, como condições do próprio espaço, como tensões, correntes ou o que quer que fossem, isto foi uma coisa que ele não pôde resolver, mas que existiam real e verdadeiramente, atuando umas sobre as outras, empurrando e arrastando os corpos dum lado para o outro, propagando-se por toda a parte e levando a ação de um lado para outro. Ao reparo de que a única condição possível do espaço vazio é o repouso absoluto, posso responder com umas perguntas:
9-
Está realmente vazio o espaço? Não nos levam os fenomenos luminícios a pensar que está cheio de algo? O éter que transmite as ondas luminícias não seria também capaz de transmitir os fenomenos que chamamos magnéticos e elétricos? Não poderia pensar-se que existe certa conexão entre os citados fenomenos e as ondas luminícias? Não poderiam ter estas como causa uma espécie de estremecimento de linhas de força? Até este ponto chegara Faraday com as suas idéias e conjecturas. Não o pode demonstrar, por mais que tivesse procurado provas afincadamente. Consolava-se indagando as conexões existentes entre a luz, a eletricidade e o magnetismo. A notável conexão que descobriu não foi a que procurava. Insistiu no seu intento e as suas investigações só terminaram com a sua morte. Entre as perguntas que fazia a si mesmo, houve uma que constantemente se apresentava no seu pensamento: necessitam as forças elétricas e magnéticas tempo para se propagarem? Quando excitamos um  eletro-imã por meio de uma corrente, percebem-se os efeitos simultâneamente em todas as distâncias? Ou começam por influir nos imãs que se encontram perto, em seguida nos mais afastados e, por último, nos mais distantes de todos?
10-
Ao eletrizar e descarregar um corpo em rápida sucessão, varia a força simultâneamente em qualquer distância? Ou, quanto mais nos afastamos do corpo, mais tarde chegam as oscilações? Em tal caso, as oscilações proparga-se-iam pelo espaço em forma de ondas: Existem tais ondas? A estas perguntas não pode Faraday respon der . E, no entanto, a resposta tem estreitíssima vinculação com os conceitos fundamentais do fisico inglês. A existirem tais ondas eletromagnéticas que, a partir dum ponto de origem percorrem livremente o espaço, demonstram-nos claramente a existência independente de forças que as produzem. A melhor maneira de provar que as ditas forças nao atuam através do espaço, mas sim se propagam passando de um ponto a outro, consiste em seguir-lhes os passos instante a instante. As perguntas apresentadas não são insolúveis: ao contrário, podem ser estudadas valendo-se de métodos muito simples. Se Faraday tivesse tido a sorde de encontrar esses métodos, nessa mesma altura teriam as suas idéias sido confirmadas. Tão evidente se teria tornado a conexão entre a eletricidade e o magnetismo, que a teriam visto olhos menos perspicazes que os seus.
11-
Mas não lhe foi dado encontrar caminho tão curto e tão reto. Durante algum tempo as experiências não indicaram nenhuma via de solução; e a teoria vulgarmente aceite não ia na direção das idéias de Faraday. A tese segundo a qual podem existir forças elétricas independentemnte das suas eletricidades estava em luta com as teorias aceites acerca da eletricidade. Além disso, a teoria dominante no campo da ótica negava-se a admitir a ideia de que as ondas de luz pudessem não ser elásticas. Parecia pouco menos que uma especulação ociosa todo o intento de discutir a fundo qualquer das duas citadas teses. Por isso, ainda é mais para a admirar o gênio afortunado do homem que pôde vincular entre si essas conjecturas, aparentemente desconexas, de tal modo que mutuamente se corroborassem a formassem uma teoria que todos tiveram que reconhecer, na altura, pelo menos plausível. Esse homem foi um ingles: MAXWELL. Eu conhecia a monografia que se publicou em 1865 acerca da teoria eletromagnética da luz: Não é possível estudar essa maravilhosa teoria sem sentir a impressão de que as equações matemáticas têm vida e inteligência próprias, de que são mais sábias que nós e até que seu próprio descobridor; de que dão mais do que receberam.
12-
Não é isso coisa impossível: pode acontecer se as equações forem mais corretas do que o pôde saber com certeza o seu descobridor. Mas também é verdade que essas equações exatas e compreensivas não se revelam senão à aqueles que, com olhar penetrante, recolhem todos os indícios de uma verdade apenas perceptível na natureza. Bem conhece os indícios a pista seguida por Maxwell. Já tinha chamado a atenção de outros investigadores: a
Reimann e a Lorentz sugirira especulações de índole semelhante, ainda que não tão fecundas em resultados. A eletricidade em movimento produz força magnética e o magnetismo em movimento produz força elétrica; mas qualauer dos dois efeitos não podem ser apercebidos senão a grandes velocidades.
Desta maneira se manifestam velocidade nas relações mútuas que existem entre a eletricidade e o magnetismo; e a constante que rege as ditas relações é também velocidade, e de magnitude extremamente grande.Essa constante foi determinada por diversos processos. Os primeiros a determiná-la foram Kohlrausch e Weber, mediante experiências exclusivamente elétricas. E resultou ser idêntica, tendo em conta os erros acidentais inerentes à tão dificil medição, a outra velocidade importante: a velocidade da luz.
13-
Tal coincidência poderia dizer-se era casual; mas dificilmente poderia considerá-la como tal um discípulo de Faraday. Teve-a Maxwell por indício de que o próprio éter deve ser o meio por onde se transmitem tanto a luz como a energia elétrica. As duas velocidades que resultavam quase idênticas tinham de ser realmente idênticas. Mas, em tal caso, tinham de intervir nas equações elétricas as constantes óticas mais importantes. Tal foi o vínculo de união que Maxwell se propôs estreitar. Desenvolveu as equações elétricas a tal ponto que abarcassem todos os fenomenos desconhecidos na altura:As ondas elétricas. Eram ondas transversais dotadas do comprimento de onda que se quisesse, desde que se propagassem pelo éter à mesma velocidade: a da Luz. E foi aqui que Maxwell conseguiu fazer ver que realmente existem na natureza ondas que têm cabalmente essas propriedades geométricas, ainda que estejamos acostumados a designá-las, não como fenomenos elétricos, mas sim com o nome especial de LUZ.
14-
Se se tem por falsa a teoria de Maxwell, não há nenhuma razão para aceitar as suas idéias sobre a natureza da luz. E se se afirma que as ondas luminosas são ondas meramente elásticas, perde todo o sentido a teoria elétrica de Maxwell. Mas se examinamos o edifício construído por este, sem nos deixarmos ofuscar por preconceitos procedentes das idéias geralmente admitidas, veremos como todas as suas partes se sustêm mutuamente como os pilares de uma ponte estendida sobre o abismo do desconhecido, para unir dois setores do que é conhecido.
Devido à dificuldade da teoria de Maxwell, pequeno foi, no início, o número dos seus discípulos. Mas quantos a estudaram a fundo se converteram em adeptos da mesma e começaram a procurar com afinco provas dos seus postulados originais e das suas conclusões últimas. Como é natural, durante muito tempo a prova experimental não pôde ser aplicada senão a preposições separadas, aos acessórios da teoria.

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Acabo de comparar a teoria de Maxwell como uma ponte estendida sobre um abismo de coisas desconhecidas. Se me é permitido continuar a desenvolver a comparação, direi que durante muito tempo o único apoio adicional que se deu à citada ponte para a consolidar foram os seus dois pilares. Desta maneira podia a ponte suportar sem perigo o seu próprio peso; mas a pressão era ainda tão grande que não podíamos aventurar-nos a construir mais qualquer coisa sobre ela. Para isso era necessário contar com pilares especiais, edificados sobre terreno sólido e destinados a sustentar o centro da ponte. Um pilar dessa espécie seria provar que a luz pode  produzir diretamente efeitos elétricos ou efeitos magnéticos.  E tal pilar sustentaria diretamente o lado ótico da construção e indiretamente o lado elétrico da mesma. Outro pilar constituiria em provar a existência de ondas de energia elétrica ou magnética, capazes de se propagarem à maneira das ondas luminosas. Este pilar sustentaria diretamente o lado elétrico da ponte e indiretamente o seu lado otico.

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Para completar a construção de modo simétrico, teria sido conveniente construir ambos os pilares; mas bastaria começar por um deles. Até agora não temos podido começar o primeiro; mas afortunadamente, após prolongadas investigações, encontrou-se um sólido ponto de apoio para o segundo. Lançaram-se bases de extensão suficiente; parte do dito pilar está já construído; devido à ajuda de numerosos trabalhadores voluntários, depressa se chegará ao fim da ponte e então poderá esta suportar o peso do que se continuará a construir sobre ela. Encontrando-se a tarefa nesta fase, coube-me em sorte meter ombros ao trabalho. A ela devo a honra de vos dirigir hoje a palavra; portanto perdoar-me-eis que trate agora de concentrar a vossa atenção exclusivamente neste aspecto da construção. A falta de tempo obriga-me, contra a minha vontade, a passar por alto as investigações levadas a cabo por muitos outros investigadores. Por isso não poderei explicar-vos de quantas maneiras se preparou o caminho para as minhas experiências e quão perto andaram de realizar as mesmas experiências vários outros investigadores.

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Era assim coisa tão dificil provar que as ondas elétricas e magnéticas necessitavam de tempo para se propagarem?
Não teria sido fácil carregar uma garrafa de Leyden e observar diretamente se demorava um pouco a produzir-se a correspondente perturbação num eletroscópio colocado a certa distância? Não teria bastado observar o que se passava com o agulha magnetisada quando alguém, colocado longe dela, excitava de repente um eletro-imã?
Com efeito, estas experiências e outras no gênero tinham sido levadas a cabo, sem que se notassem indícios de tempo transcorrido entre a causa e o efeito. Para os adeptos da teoria de Maxwell, isso e apenas o resultado inevitável da enorme velocidade de propagação. O efeito produzido pela carga da garrafa de Leyden ou a excitação do eletro-imã ; não podem ser notados a uma distância moderada, digamos, a uns dez metros. Ao atravessar esta distância a luz e, por conseguinte, de acordo com a teoria, a força elétrica, demora unicamente uma trinta-milionésima parte de segundo. Não podemos medir diretamente nem sequer notar uma fração tão pequena de tempo.

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Desdita maior é que não tenhamos à nossa disposição meios convenientes para indicar com suficiente exatidão o começo e o final de tão curto intervalo. Se desejamos medir uma distância com um décimo de milímetro de aproximação, seria absurdo assinalar com um traço de giz o começo dela. Se desejamos medir um intervalo de tempo com um milésimo de segundo de aproximação, seria absurdo assinalar o começo de tal intervalo com a badalada de um relógio de torre. Pois bem, segundo as nossas idéias comuns, o tempo da descarga duma garrafa de Leyden é inconcebivelmente curto. Já o seria, certamente, se fosse uma trinta-milionésima parte de segundo. E, no entanto, para o que agora nos propomos averiguar, seria mil vezes demasiado comprido. Por sorte, a natureza oferece-nos para este caso um método mais delicado. Desde há muito tempo que se sabia que a descarga da garrafa de Leyden não é um processo contínuo mas que, à semelhança das badaladas de um relógio, consta de grande número de oscilações, de descargas de sentido contrário que se seguem umas às outras a intervalos exatamente iguais. A eletricidade pode simular os fenomenos da elasticidade. O período de uma só oscilação é muito mais breve que a duração total da descarga; o que nos insinua a idéia de deitar mão de uma só oscilação como indicador.

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Mas por pouca sorte, a mais curta oscilação até agora observada demora um bom milionésimo de segundo. Enquanto uma oscilação vai assim avançando efetivamente, os seus efeitos espalham-se cobrindo uma distância de trezentos metros; de maneira que dentro das modestas dimensões de uma sala, notar-se-iam quase no mesmo instante em que começasse a oscilação. De maneira que, com os métodos conhecidos, não podia avançar-se no estudo do problema. Era necessário algum conhecimento novo. Chegou este sob a forma da descoberta que não só a descarga da garrafa de Leyden mas também, sob condições convenientes, a descarga de qualquer condutor produz oscilações. Estas oscilações podem ser muito mais curtas que as das garrafas de Leyden. Ao descarregar
o condutor duma máquina elétrica, excitamos oscilações cujos períodos flutuam entre um centésimo-milionésimo e um milésimo-milionésimo de segundo. Verdade é que estas oscilações não se sucedem em série longa e contínua: são pouco numerosas e expiram rápidamente. Para as novas experiências valer-nos-ia muito mais que as coisas acontecessem doutro maneira. Mas, não obstante, há possibilidades de bom êxito, desde que logremos obter duas ou tres indicações determinadas com esta exatidão.

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Assim, por exemplo, no domínio da acústica, se nos privassem dos tons contínuos de metais e cordas, bem pobre seria a música que poderíamos conseguir, batendo em pedaços de madeira. Possuímos agora indicadores para os quais não é demasiado breve uma trinta-milionésima parte de segundo. Mas de pouco nos serviriam, se não pudessemos perceber realmente a sua ação à distância requerida, ou seja a uns dez metros. Podemos conseguí-lo por um sistema muito simples: No ponto exato onde queremos descobrir a força, colocamos um condutor, por exemplo um arame reto interrompido ao meio por uma pequena ranhura ou distancia explosiva. A força alterna e rápida põe em movimento a eletricidade do condutor e dá origem a uma chispa na ranhura.
Este método teve de ser encontrado por meio de experiência, pois, por muito que raciocinássemos, nunca poderíamos predizer se daria ou não resultados satisfatórios, por que as chispas são microscópicamente curtas, o seu comprimento chega apenas a um centésimo de milímetro, e duram apenas um milionésimo de segundo. Quase parecia impossivel e absurdo que fossem visiveis; mas numa sala mergulhada em perfeita escuridão, são visíveis para o olho humano que esteja bem habituado à escuridão. De fios assim tênues depende o êxito da nossa empresa.

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Ao princípio encontramo-nos em presença dum sem fim de perguntas. Em que condições podemos obter as melhores oscilações? Devemos indagar com todo o cuidado quais são essas condições e fazer delas o melhor uso possível. Qual é a melhor forma que podemos dar ao oscilador? Podemos escolher arames direitos ou arames circulares , ou condutores de outras formas e em cada caso, a escolha terá certa influência nos fenomenos.
Uma vez escolhida a forma, que tamanho escolheremos? Depressa verificamos que este ponto tem sua importância, pois certos condutores não são aptos para toda a espécie de oscilações, e de ambas as coisas existem relações que nos trazem à memória os fenomenos acústicos de ressonância. E, por último, não existem incotáveis posições que poderemos dar a um condutor, no que diz respeito às oscilações? Em algumas destas posições as chispas são fortes, noutras mais fracas, e noutras desaparecem por completo. Talvez lhes interesse que lhes fale dos fenomenos peculiares que aqui se produzem; mas não me atrevo a roubar-lhes o tempo com estas coisas, porque são pormenores; pormenores, digo, para quando estamos dando uma olhadela aos resultados gerais da investigação, mas de nenhum modo pormenores sem importância para o investigador que se encontra entregue a uma tarefa deste genero.

21-
São peculiares dos instrumentos com que se tem que trabalhar; e o bom êxito do trabalhador depende de como se entende com as suas ferramentas. O estudo consciencioso dos instrumentos e das questões antes mencionadas constituíram uma parte muito importante da tarefa que tinha de ser levada a cabo. Feito isto, óbvio foi o método para resolver o problema principal. Se entregarem a um físico certo número de diapasões e ressoadores e lhe pedirem que demonstre como requer tempo a propagação das ondas acústicas, não terá a menor dificuldade em fazê-lo, nem sequer dentro do estreito recinto duma sala. Coloca um diapasão num ponto qualquer da sala, escuta com o ressoador em vários pontos situados em volta daquele e observa a intensidade do som. Demonstra como em certos pontos o som é muito tênue e como isto é consequência de que nos tais pontos se anula toda a oscilação por causa de outra que, tendo partido depois dela, chegou até ao ponto por um caminho mais curto. Se um caminho
mais curto requer menos tempo que outro mais comprido, quer isto dizer que a propagação requer tempo. Assim fica resolvido o problema. Mas o físico, passando mais adiante, faz-nos ver como as posições de silêncio se sucedem à distâncias regulares e iguais; e baseando-se nisto, determina o comprimento da onda e, desque que conheça o tempo de vibração do diapasão pode deduzir daí a velocidade da onda.

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Do mesmo modo procedemos no caso das nossas ondas elétricas. Em vez do ressoador, usamos o nosso arame interrompido, a quem poderíamos chamar Ressoador Elétrico. Observamos que ao colocá-lo em certos sítios, se produzem chispas na ranhura, e noutros sitios não. Vemos como os pontos mortos se sucedem periódicamente em ordem determinada. Desta maneira fica provado que que a propagação requer tempo e se pode medir
o comprimento de onda . Covém então perguntar se tais ondas são longitudinais ou transversais. Num sitio determinado colocamos o nosso arame em duas posições diferentes no que diz respeito à onda, numa posição responde, noutra não. Isto basta; o problema está resolvido: as nossas ondas são transversais. Resta-nos agora  falar da sua velocidade. Multiplicamos pelo período calculado de oscilação o comprimento de onda medida e encontramos uma velocidade aproximadamente igual à da luz. Mas se, apesar disso, nos ficarem dúvidas acerca da exatidão do cálculo,
temos outro método ao nosso alcance. Nos arames, da mesma maneira que no ar, a velocidade das ondas elétricas é extremamente grande; de maneira que podemos estabelecer comparação direta entre ambas.

23-
Pois bem, há já tempo que se mediu a velocidade com que se transmitem as ondas elétricas ao longo dos arames.
Este problema era mais fácil de resolver porque pode seguir-se o percurso das tais ondas ao longo de muitos quilômetros. Assim obtemos outra medida, puramente experimental, da nossa velocidade e, se bem que o resultado seja mera aproximação, pelo menos não está em contradição com o outro. Todas estas experiências são, por si, muito simples; mas levam-nos a conclusões de extraordinária importância: dão o golpe de graça a toda a teoria que postule que as forças elétricas atuam através do espaço independente do tempo. E assinalam um triunfo glorioso da teoria de Maxwell.

* Material de Pesquisa:
The Autobiography of Science

Autores
Forest Ray Moulton e Justus J.Schifferes


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