Make your own free website on Tripod.com
DOIS EPISÓDIOS DE UMA MESMA LUTA

Ernani Fornari

Diz Ernani Fornari á pag. 75 de seu livro: O INCRÍVEL PADRE LANDELL DE MOURA:

Antes de entrarmos na segunda parte deste livro, a qual constará da descrição minuciosa das descobertas e invencóes do Monsenhor Landell de Moura, com a tradução integral  das três Patentes a ele outorgadas pelo Governo Norte-Americano - coisa que será feita pela primeira vez - queremos narrar dois episódios bastantes ilustrativos da batalha que vimos sustentanto, há mais de vinte anos, com o objetivo de provar, não apenas a autenticidade dessas Patentes, uma vez que ainda há pessoas de alto nível científico que, mesmo diante delas, hesitam em dar-lhe crédito, mas ainda e principalmente a exatidão das Leis e Teorias, a exequibilidade dos aparelhos e, sobretudo a perfeita sanidade mental do seu criador.

 Já não queremos referir-nos à prioridade de seus inventos. Essa será sempre contestada pelos que se atém a datas oficiais. O que desejamos assinalar é a fama de louco que, ainda hoje, com gratuita, implacável e estranha insistência, persegue a memória do grande físico brasileiro. Vejamos os dois episódios, entre muitos outros, em que aparece a palavra "louco", embora, no segundo, o resultado tenha sido favorável ao padre, finalmente.
Em meados de 1939, levando conosco as três patentes, procuramos o nosso querido e saudoso amigo Prof. Roquette Pinto, sem dúvida um dos maiores sábios brasileiros de nosso tempo, e, depois de falar-lhe longamente sobre a vida atribulada e as avançadas teorias e realizações do Padre LANDELL de MOURA, lemos-lhe, entusiasmados, um resumo da primeira parte deste nosso trabalho - leitura que ele ouviu atentamente, sem interromper-nos uma só vez.

Finda a leitura, triunfantes, apresentamos-lhes as Patentes até aquele momento conservadas em nossa pasta de couro, para armar o efeito:
- E aqui, Prof. Roquette, estão as Patentes que provam tudo quanto acabo de ler-lhe.
Roquette Pinto, sem se deixar impresionar pelo nosso coup de théâtre sorriu mansamente e respondeu-nos, sem
segurá-las:
- Nao é necessário, meu caro Fornari. Pode guardá-las. Pela leitura que me fez, já estou bem a par do assunto.
- Mas, Prof. Roquette - insistimos - devo confessar-lhe que tenho receio de não haver exposto com bastante clareza, propriedade e exatidão científica as idéias e sistemas do padre, e eu gostaria que o senhor verificasse, ao menos, se a tradução das Patentes está fiel ao texto em inglês. Como já lhe declamei, não fui eu quem as traduziu, pois pouco ou nada sei desse idioma. Além do mais, eu desejaria sua opinião escrita a respeito. Ela poderia até servir-me de prefácio ao livro, se o senhor o consentisse.
Roquette Pinto olhou-nos demoradamente, como se sentisse penalizado com a desilusão que ia dar-nos, e falou,
por fim:
-Bem, poeta, já que insiste em ter minha opinião, vou usar de toda a franqueza: não perca mais tempo com esse padre. Depois da afirmação que ele fez sobre a possível dispensa do selênio em tais transmissões sem fio, minha opinião é de que se trata realmente de um louco. E mudou de assunto.

E prosseguimos em nosso bom combate.
Um ano mais tarde, pessoa amiga, impressionada com nossa obstinação, aproximou-nos de outro eminente cientista, o Engenheiro Naval, Civil e Mecânico-eletricista, Sr. Mario de Oliveira Penna, doutor em ciências pela Universidade da Califórnia, de cuja alta competência e autoridade na matéria, notoriamente reconhecidas e proclamadas nos meios técnicos do Rio de Janeiro, já muito ouvíramos falar. Embora um tanto desconfiado, recebeu-nos o ilustre Dr. Mário de Oliveira Penna, um dia, em sua casa, com o cavalheirismo, a paciência e a boa vontade que lhe são proverbiais. Repetiu-se a cena que havíamos representado diante do inesquecível Roquette Pinto.

Mário de Oliveira Penna, que, como acontecera com o autor de Rondonia, durante todo o tempo em que estivéramos com a palavra não nos interrompera nem esboçara o menos gesto, limitando-se a ouvir-nos com a atenção e estudar-nos com  curiosidade, teve, todavia, à vista das três Patentes, uma reação diferente do falecido
acadêmico. Segurou-as rápidamente, examinou-as detidamente e pôs-se a folheá-las com grande ansiedade.  De súbito, deu alguns passos pela sala, parou,  olhou-nos, emocionadíssimo, e exclamou:
"- Meu Deus, Sr. Fornari, como isto é extraordinário! E como é infeliz e descuidada a nossa pátria! Ter sido o berço um homem como esse, e tê-lo abandonado e esquecido! Eu não podia acreditar no que o senhor me estava lendo, e devo mesmo dizer-lhe que, enquanto o senhor falava e lia, eu estava pensando que tão louco era o senhor
como esse padre. Estas Patentes, porém, sao o atestado de um gênio.
Não pode calcular como é dificil obter uma Patente de invenção na América do Norte, o número de exigências que
são feitas, o rigorismo dos estudos e investigações a que é submetido qualquer engenho, por menos importante que ele seja, apresentado a THE PATENT OFFICE, de Washington, antes de aprová-lo. E se esse padre obteve estas, é, pode crer, porque ele as merecia realmente e tinha direito de prioridade sobre o que nelas se contém. Deixe-as comigo uns dias, por favor, que desejo estudá-las minuciosamente. Comunicar-lhe-ei, depois, minha opinião por escrito.

Deixamo-las em seu poder, gostosamente, agora cheios de esperança.
Um mês mais tarde, recebíamos do Dr. Mário de Oliveira Penna o seguinte Parecer:
"O reverendo Padre ROBERTO LANDELL DE MOURA, nascido na cidade de Porto Alegre aos
21 de janeiro de 1861, requereu e obteve três patentes de invenção nos Estados Unidos da América, a saber:

a)Transmissor de Ondas

b)Telefonia sem fio

c)Telegrafia sem fio

O histórico de suas atividades constantes do processo, perfeitamente documentado e justificado,
assim como a análise técnica de suas invenções comparativamente ao que era conhecido na época, e ao que foi gradativamente, integrando-se na ciência, em sua evolução, até a industrialização da Telegrafia e Telefonia sem fio, provam, de modo a não deixar dúvidas, ter conseguido aquele eminente brasileiro conceber, realizar e provar os principios fundamentais da exequibilidade da transmissão, princípios esses que, em essência, constituiem a base de todas as conquistas e aperfeiçoamentos técnico-elétricos modernos nas comunicações sem fio. Não se pode deixar de reconhecer que o imortal Branly fez experiências de centelhas em circuito fechado em 1885, na Universidade Católica de Paris. Marconi, aproveitando-se dessas experiências e dos principios fundamentais que Branly sabiamente anunciou, correu a patentear um sistema por ele organizado de transmissão e recepção sem fio. Nem por isso deixa-se de proclamar a genialidade das concepções de Branly, sem as quais Marconi não teria obtido a Patente n. 12039, de 12 de Outubro de 1896, na Inglaterra. O Rev. padre Landell de Moura, embora sem a prioridade científico-oficial, por isso que só mais tarde conseguiu suas Patentes nos Estados Unidos da América, já em 1893 realizava suas primeiras experiências de transmissão e recepção sem fio, em São Paulo

A narrativa dos episódios que prejudicaram suas primeiras tentativas, o prosseguimento de seus estudos e o registro, em tempo, de seus aparelhos experimentais, mostra, evidentemente, que sómente devido a razões imperiosas e superiores deixou ele de se incluir, na época, entre os pioneiros de tão relevante conquista.
Estudando agora, do ponto de vista estritamente técnico, força é reconhecer - porque se demonstra de modo inequívoco - que suas três patentes contêm, de fato, todas as peças essênciais de um sistema que se foi aperfeiçoando até constituir o núcleo científico básico que permitiu a industrialização das transmissões e das recepções sem fio. Assim, em suas Patentes sobre "Telegrafia sem Fio" e "Telefonia sem fio" verifica-se, além da engenhosidade dos aparelhos demonstrativos, o principio do Circuito Oscilatório , sua aplicação às ondas curtas e a todas as vibrações eletro-acústicas; o princípio fundamental da Válvula de 3 electródios; e a produção de  Ondas Hertzianas e sua transmissão e  recepção. Na Patente sobre "Transmissor de Ondas", constata-se de forma nítida, a existência de um circuito similar aos que são empregados, ainda hoje, embora com modificações e aperfeiçoamentos, nos transmissores. E, sobretudo, observa-se o emprego de um disjuntor automático do transmissor, comandado pelas vibrações sonoras, determinando a correspondência das ondas eletromagnética transmitidas às ondas sonoras pelas quais são produzidas.

Este processo é, assim, a característica do sistema inventado e patenteado pelo pleclaro Padre Landell de Moura. E sob este aspecto, após 36 anos decorridos desde sua Patente (Este parecer foi escrito em 1939 e a seu autor passou despercebido que, já em 1900, o Padre Landell de Moura, havia patenteado seu invento no Brasil). e cerca de 47 desde suas primeiras experiências em São Paulo, não é outro o pricípio em que se apóiam todas as aplicações de transmissores no campo industrial. Há pois nas tres patentes do patrício ilustre, idéias, concepções, princípios e engenhosidade na formação de circuitos elétricos, que caracterizam, de forma incontestável, os mesmos métodos e processos que foram aplicados mais tarde, com a natural evolução no meio industrial, com os aperfeiçoamentos da técnica e dos meios materiais de execução. Assim, estou convencido de que, de justiça e de direito, cabe ao Padre Landell de Moura a glória imortal de ter
idealizado o mais perfeito sistema de telefonia e telegrafia sem fio na época em que fez  suas primeiras demonstrações, e que não foram outros os princípios aplicados, senão os constantes de suas Patentes, na fase inicial da industrialização dos transmissores e receptores de telegrafia sem fio (T.S.F.)"
 

Graças a Deus! Isto dito por uma sumidade da categoria do Dr. Mário de Oliveira Penna, recompensava-nos de todos os imensos sacrificios que fizéramos, de todo o duro trabalho que tivéramos e, até do ridículo a que nos havíamos exposto aos olhos de tantas pessoas, em nosso teimoso e devotado empenho de querer restituir ao grande sábio rio-grandense a glória que, uns, de má-fé ou por desconhecimento, lhe negaram, e outros lhe surrupiaram, de sabidos que foram. E dizemos "até do ridículo"porque igualmente nós, muitas e muitas vezes. havíamos passado por "loucos", embora, infelizmente, não por tão loucos como o Monsenhor ROBERTO LANDELL DE MOURA...

                                                                         Regressar à pagina principal